O Porto da Lenha localiza-se na Península de Itapagipe, no bairro do Bonfim, em Salvador. Anteriormente denominado Praça Estaleiro, foi um dos primeiros centros de abastecimento da cidade, papel que perdurou até o início do século XX. Era um dos pontos onde chegavam saveiros com produtos do recôncavo baiano e das ilhas da Baía de Todos os Santos, inclusive a lenha e o carvão tão demandados na época. Daquele período, permanece sua estreita ligação com o mar, através do estaleiro e das atividades de pesca. No entanto, mesmo com a exuberante vista para a Baía de Todos os Santos que propicia, o Porto da Lenha continua relativamente resguardado em relação a seu atrativo entorno urbano, especialmente por sua localização por trás com a Colina Sagrada, onde se encontra a Basílica do Senhor do Bonfim. Trata-se um dos trechos menos visíveis e turísticos da orla de Salvador.
Apesar do investimento municipal nas últimas décadas no importante patrimônio cultural em suas redondezas, o Porto da Lenha vinha sendo utilizado como um espaço de lazer em condições precárias. A privatização espontânea da área pública também prejudicava a apropriação democrática desse espaço à beira-mar, de grande valor paisagístico, em especial pela presença expressiva de vegetação: cerca de 70 árvores em 1.440 m² de jardim. Expansões improvisadas e desordenadas dos quiosques e barracas comerciais criavam uma barreira visual, afetando a ambiência local. Além de conflitos de uso e na distribuição espacial da praça, problemas ligados à manutenção inadequada, em especial das calçadas e dos acessos à praia, comprometiam a segurança de seus usuários.
Ao mesmo tempo, o Porto da Lenha revelava-se como um espaço ambivalente, com fama na cidade por conta do tradicional pirão de aipim, mas também com uma dimensão local e bucólica muito forte. Sua intensa apropriação pela vizinhança, o movimento dos pescadores e o estacionamento de embarcações no cais, por exemplo, caracterizam o espírito deste lugar, elemento fundamental a ser considerado nas iniciativas para o requalificar.
NOSSAS PROPOSTAS
O projeto da equipe da FFA para o Porto da Lenha trouxe qualidade urbanística e conforto para a comunidade e visitantes, dando continuidade aos investimentos já realizados pela Prefeitura Municipal de Salvador na orla de Itapagipe. Um processo de ampla participação da comunidade local e do entorno, assim como dos comerciantes, enfocou aspectos centrais como memória, infraestrutura e conflitos, além de desejos e expectativas. As discussões orientaram a definição das seguintes diretrizes projetuais, considerando três dimensões: espaços de uso controlado, áreas livres e sistema viário:
- Reformulação dos quiosques comerciais para atender demandas de área coberta e melhorar as condições higiênicas e operacionais, além de potencializar a dinâmica comercial e inibir estruturas improvisadas;
- Redistribuição espacial dos equipamentos, visando otimizar o espaço da praça, oferecendo áreas de estar e contemplação que tirem partido das qualidades paisagísticas locais;
- Adaptação do sistema viário para a redução de congestionamentos e a complementação do circuito cicloviário das orlas da Ribeira e do Bonfim, facilitando o acesso à praça;
- Apoio ao trabalho dos pescadores, com a ampliação de rampas e espaços para manutenção das embarcações, assim como o fornecimento de instalações com condições adequadas de higiene para os trabalhos de seleção e acondicionamento dos pescados.
Assim, o projeto previu a reorganização de usos na praça, numa configuração com dois setores bem definidos, que se conectam através do campo de futebol preexistente.
O primeiro setor concentra os quiosques comerciais, dando-lhes maior visibilidade e ao mesmo tempo propiciando maior permeabilidade visual. Neste, um pórtico de entrada marca a chegada ao local. A linguagem de arquitetura contemporânea utilizada nos quiosques potencializa a atração do público, além de reforçar a imagem do lugar, com uso de cores que ora se harmonizam ora contrastam com o ambiente litorâneo. O provimento de um espaço comum para mesas e a realização de eventos de pequeno porte ressalta a dimensão pública da praça.
O segundo setor ficou mais dedicado a usos e atividades dos moradores, agregando o programa preexistente da praça, mas de uma forma requalificada. Foram incluídos um parque infantil em área resguardada, um centro comunitário, um anfiteatro, equipamentos de ginástica, um quiosque de apoio aos pescadores e guarda de barcos, seguindo uma implantação que reforça o caráter ajardinado da praça. Junto ao campo de futebol preexistente, foi instalado um vestiário para apoio das atividades dos desportistas.
A implantação de uma circulação perimetral trouxe novas formas de contato com o mar, propiciando uma melhor relação espacial da praça com a praia. Por exemplo, um recorte na contenção onde anteriormente havia uma escadaria danificada conforma um pequeno anfiteatro, que se articula à nova escadaria e às rampas de acesso à faixa de areia. Quando a maré está baixa, pode-se realizar aí pequenas apresentações; na maré alta, o anfiteatro converte-se num trampolim. Independentemente das flutuações do mar, este espaço contribui para atenuar a sensação de confinamento que se observava neste trecho, estabelecendo uma desejável continuidade espacial.
A implantação de uma circulação perimetral foi associada a uma ampliação da área da praça, com um trecho em balanço junto ao antigo cais. Além de propiciar a circulação segura de pedestres ao longo da Avenida Beira Mar, este balanço contribui para proteger a praça da rebentação, prevenindo que ela seja inundada na maré alta.
Com sua obra inaugurada em 31 de março de 2025, o Porto da Lenha requalificado convida moradores e visitantes a permanecer mais tempo junto à Colina Sagrada, apreciando o panorama da Baía de Todos os Santos.